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Wednesday, September 06, 2017

O Senhor Gonçalves ia ficando Cego!

Entretido que me encontrava nos meus afazeres de nada de nada, bateram à porta. De pronto levantei-me. Acorri à porta.
Batiam, cada vez mais, como que alguém inquieto e assustado quisesse entrar e o fizesse de formas muito determinadas na sua insistência.
Quando a abri pude visualizar o Senhor Gonçalves “agarrado” ao olho esquerdo, desesperado e com um comportamento de aflição.
De imediato, procurei entender o que se tinha passado com ele? Como sucedera aquilo?
Quando tirou a mão da cara fiquei muito sério e preocupado pelo seu mal-estar e infelicidade.
Tinha um olho de uma gravidade evidenciada que nunca vira na minha vida.
Ajudei-o a mudar de roupa e como um “tiro” cheguei ao Hospital com ele.
Disse-me na sua bondade agradecida que eu podia esperar em casa. Para ele aquilo era rápido e com sucesso na sua cura. Era pouco tempo.
Fiz o que disse e dirigi-me, apreensivo, a nossa casa. Estaria pronto se ele me chamasse ou me telefonassem do Hospital.
Meditei no que me dissera. Não teve cuidados no trabalho e limpou o seu olho com enxofre.
Contou-me que estivera toda a manhã a deitar enxofre nas vinhas, perante um calor abrasador. Facilmente, constatei que a lesão era muito grave e merecedora de cuidados médicos, os mais rápidos possível.
Quando o fui buscar, o olho parecia pior de quando entrara naquela Unidade de Saúde. Encontrava-se muito inchado e aumentara a lesão que se tornara gigantesca. O olho estava em péssimo estado e evidenciava uma gravidade extrema.
Pensei e pensei.
 Ocorreu-me à minha memória, que já fora excelente, de uma Senhora lindíssima que era Oftalmologista. Tínhamos trocado conversas profundas relativas à Educação porque se tornara minha amiga. Na altura eu era professor e  Diretor da Turma da filha.
Virei-me para dentro de mim, com alguma demora. Ouvia os queixumes do Senhor Gonçalves. Que nunca vira tão sofrido e com uma lesão tão preocupante e desesperada do seu Estar que “traduzia” a situação desesperada em que se encontrava.
Ganhei forças. Peguei no telefone. Liguei-lhe com alguma nostalgia e, ciente de que me atenderia, e faria alguma coisa. Pela descrição que o Senhor Gonçalves me tinha feito fora ela que o atendera no Hospital.
Com ansiedade e desencanto ouvia o “barulho” e o ruído do telefone a chamar.
Nisto a extraordinária Senhora atendeu e, de pronto, disse-lhe quem era e expressei-lhe a minha dor e o meu desespero pelo aspeto do olho do Senhor Gonçalves.
A Senhora, imediata e prontamente me reconheceu e me referiu a lamentável e grave situação dele.
Desculpou-se sem culpa alguma.
Imediatamente, me disse que o levasse de novo com urgência ao Hospital, pois, pensava que agarraria outra postura perante ele e que eu “seguiria” o Senhor constante e exaustivamente até ele ficar bem.
Quando cheguei ao Hospital a Senhora já lá estava.
Viu-o com pormenor e com atenção. Colocou as suas mãos na cara em sinal da gravidade do olho do Senhor Gonçalves e, começou a escrever a prescrição clínica para este caso dela, que quase tinha a convicção, se não fosse já tratada, o olho evoluiria para a cegueira inevitável e sem possibilidades de cura. Seria a cegueira total e absoluta.
Acabou a prescrição.
Possuía um sorriso maravilhoso estampado no seu rosto terno e extraordinário. Ao mesmo tempo que me olhava e olhava para o Senhor Gonçalves, explicou-nos, com ternura e meigamente, como deveríamos fazer.  
Assentei tudo com empenho e dedicação. Peguei numa folha e apontei os fármacos que devia aplicar e, sem falhar um dia sequer.
Na folha escrevi o que me fora dito fazer.
Foi cansativo, mas “salvei-lhe” a cegueira e ficou bem.
No final de uma semana, como a Doutora tinha prognosticado sentiu-se, então, sem mazelas ou outra anormalidade de qualquer índole. “Estava pronto para outra”, como se costuma dizer.
Ao vê-lo tão animado e bem-disposto telefonei à Doutora e disse-lhe o que via de fabuloso no Senhor Gonçalves. Associado a “isto” perguntei-lhe, perentoriamente, como lhe podia retribuir o “milagre” que ela cometera?
A grandiosidade desta Médica veio de pronto: -
- A minha maior retribuição foi tê-lo curado.
Perante esta enormidade de Ser Humano que ela era, agradeci-lhe imenso e disse-lhe que era uma preciosidade humana grandiosa e valiosa. Imprescindível em qualquer lado.
Apenas sorriu.
O Senhor Gonçalves sorriu.
Afinal, o Senhor Gonçalves não era assim tão mau.
E, é destas atitudes que se constrói uma vida.
Obrigado, Doutora.
António Pena Gil


Sejam felizes, sim?

(O meu último livro para todos.)